Brasileiros na Irlanda: por que planejar a aposentadoria dos dois lados do oceano
Aposentadoria·6 min de leitura

Brasileiros na Irlanda: por que planejar a aposentadoria dos dois lados do oceano

Vanessa Vaz Marschallinger

Advogada previdenciarista · OAB/RJ 264.772

Nos últimos anos, a Irlanda se tornou um dos destinos preferidos dos brasileiros. Segundo o Censo irlandês de 2022, o número de brasileiros residentes no país saltou de cerca de 13,6 mil em 2016 para quase 40 mil — um crescimento de mais de 150% em apenas seis anos. Estimativas mais recentes da Embaixada do Brasil em Dublin apontam que a comunidade já ultrapassa 58 mil pessoas, incluindo milhares de crianças. Em uma ilha de pouco mais de 5 milhões de habitantes, somos hoje uma das maiores comunidades estrangeiras do país.

A maioria chega jovem, para estudar inglês e trabalhar. Passam-se os anos, muitos constroem carreira, contribuem para a previdência local e acabam ficando bem mais tempo do que planejavam. E é justamente aí que surge uma pergunta que quase ninguém faz a tempo: como fica a minha aposentadoria depois de ter trabalhado nos dois países?

O ponto de partida: Brasil e Irlanda não têm acordo previdenciário

Este é o dado mais importante deste artigo, e o que mais gera confusão. O Brasil mantém acordos internacionais de previdência social com vários países — Portugal, Alemanha, Itália, Estados Unidos, entre outros. Esses acordos permitem somar o tempo de contribuição de um país com o do outro, facilitando o direito à aposentadoria.

Com a Irlanda, porém, esse acordo não existe. Brasil e Irlanda não firmaram tratado bilateral de seguridade social. Na prática, isso significa uma coisa simples e decisiva: o tempo que você trabalhou na Irlanda não conta para a aposentadoria do INSS, e o tempo que você trabalhou no Brasil não conta para a aposentadoria irlandesa. Os dois sistemas funcionam como estradas paralelas que nunca se cruzam.

Mas atenção — há um lado positivo nisso

A ausência de acordo não é só má notícia. Ela significa que você pode ter direito a duas aposentadorias separadas e simultâneas: uma paga pelo INSS e outra paga pelo Estado irlandês. Basta cumprir, por conta própria, os requisitos de cada país. O segredo está em planejar para não deixar nenhum dos dois lados incompleto.

Como funciona a aposentadoria irlandesa (de forma simples)

A aposentadoria pública da Irlanda para quem trabalhou e contribuiu chama-se State Pension (Contributory). Ela é financiada por uma contribuição chamada PRSI, descontada do salário — mais ou menos como o desconto do INSS no Brasil. Uma boa notícia: você pode receber essa aposentadoria e, ao mesmo tempo, continuar trabalhando ou ter outra renda, porque ela não passa por análise de patrimônio.

Idade e requisitos principais

  • Idade: pode ser recebida a partir dos 66 anos. É possível adiar até os 70 anos para receber um valor maior.
  • Tempo mínimo: são necessárias 520 contribuições semanais pagas — o equivalente a cerca de 10 anos de trabalho — para ter direito a algum valor.
  • Início antecipado: é preciso ter começado a contribuir antes dos 56 anos para se aposentar aos 66.
  • Valor cheio: para receber a aposentadoria máxima, é preciso um histórico muito maior — cerca de 40 anos de contribuições (2.080 semanas). Com menos que isso, o valor é proporcional.

Em 2026, quem se aposenta aos 66 anos com o tempo completo recebe cerca de € 299,30 por semana. E há um detalhe que costuma tranquilizar quem volta ao Brasil: as contribuições PRSI já pagas não se perdem, e a aposentadoria irlandesa pode ser paga em qualquer lugar do mundo — inclusive depositada em conta no Brasil.

O grande risco: parar no meio do caminho

Imagine uma brasileira que trabalhou oito anos na Irlanda e depois voltou ao Brasil. Ela juntou cerca de 416 contribuições — ficou perto das 520 necessárias, mas não chegou lá. Sem acordo entre os países, esse tempo não pode ser somado ao INSS. Resultado: ela corre o risco de perder totalmente o direito à aposentadoria irlandesa, mesmo tendo contribuído por anos.

É exatamente para situações assim que existe uma solução — e ela é o coração do planejamento previdenciário internacional.

A contribuição voluntária irlandesa (Voluntary Contribution)

Quem deixou de contribuir de forma obrigatória na Irlanda pode continuar pagando por conta própria, para não perder o direito à aposentadoria de lá. Mas há regras — e uma delas é um verdadeiro relógio correndo:

  • É preciso já ter pelo menos 520 contribuições pagas para poder aderir (ou seja, ela ajuda quem já cruzou o mínimo a manter o vínculo e aumentar o valor).
  • Prazo de 5 anos: o pedido para virar contribuinte voluntária precisa ser feito dentro de 5 anos contados do fim do último ano em que se pagou a contribuição obrigatória. Perdeu o prazo, perdeu a chance.
  • Valor: depende da última contribuição da pessoa. Para ex-empregados comuns, é 6,6% da renda, com mínimo de € 500 por ano; para quem era autônomo, é uma taxa fixa de € 650 por ano.

O detalhe que mais custa caro

Aquele prazo de 5 anos é, na minha experiência, o ponto que mais faz brasileiros perderem direitos na Irlanda. A pessoa volta ao Brasil, a vida segue, e quando percebe já passou do prazo para manter as contribuições ativas. Um bom planejamento previdenciário identifica essa janela antes que ela se feche.

Por que o planejamento previdenciário é indispensável

Planejar a aposentadoria de quem viveu nos dois países não é luxo — é proteção. Como as regras não se comunicam, cada decisão precisa ser pensada olhando os dois sistemas ao mesmo tempo. Um bom planejamento previdenciário internacional cuida, entre outras coisas, de:

  • Levantar o histórico de contribuições nos dois países (o CNIS no Brasil e o extrato de PRSI na Irlanda) para saber exatamente onde a pessoa está.
  • Avaliar se vale manter contribuições ativas no Brasil (contribuição facultativa ao INSS) durante o período no exterior, para não perder tempo nem carência.
  • Verificar se a pessoa está perto do mínimo irlandês e se ainda dá tempo de aderir à contribuição voluntária dentro do prazo.
  • Projetar as duas aposentadorias em conjunto, para que a pessoa chegue aos 66 anos com direito garantido dos dois lados — e não com surpresas.

Trabalhar fora do Brasil é uma conquista. Mas a construção da aposentadoria, quando há dois países envolvidos e nenhum acordo entre eles, exige olhar profissional e antecipação. Quanto mais cedo o planejamento começa, mais direitos se preservam.

Trabalhou ou pretende trabalhar na Irlanda? Não deixe a sua aposentadoria ao acaso. Um planejamento previdenciário internacional bem-feito é a diferença entre chegar à aposentadoria com um direito garantido em cada país — ou descobrir, tarde demais, que anos de trabalho não se transformaram em benefício algum.

Fontes oficiais consultadas

Citizens Information (citizensinformation.ie) — órgão estatutário do Estado irlandês. Department of Social Protection / gov.ie — órgão do governo da Irlanda. Censo da Irlanda de 2022 (CSO). Mapeamento da Comunidade Brasileira na Irlanda — Embaixada do Brasil em Dublin (2024).

Este artigo tem caráter informativo e não substitui a análise individual de cada caso. Regras e valores são revistos periodicamente; confirme sempre a informação vigente na data da consulta.

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