Vanessa Vaz Marschallinger
Advogada previdenciarista · OAB/RJ 264.772
Por que os 35 aos 40 são a idade de ouro do planejamento
Existe uma verdade um pouco desconfortável sobre aposentadoria: quanto mais cedo você começa a se planejar, menor é o esforço necessário e maior é o resultado. Entre os 35 e os 40 anos, a maioria das mulheres já tem alguns anos de contribuição registrados, uma carreira minimamente estabelecida e — o mais importante — tempo. Tempo é o ingrediente mais valioso de qualquer planejamento, e ele é o único que não dá para comprar depois.
O problema é que essa também é a fase em que a vida está mais cheia: carreira em ascensão, filhos, mudanças, às vezes uma mudança de país. É fácil deixar a aposentadoria como “aquilo que eu resolvo depois”. O detalhe é que “depois” costuma chegar com as regras mais duras e com menos tempo para ajustar a rota.
As regras mudaram (e continuam mudando)
Desde a Reforma da Previdência de 2019, o caminho até a aposentadoria virou um percurso com regras de transição que apertam um pouco a cada ano. Isso significa que a aposentadoria que você imaginava aos 20 anos provavelmente não é mais a que você terá.
Hoje, de forma resumida, uma mulher pode se aposentar por alguns caminhos diferentes. Pela idade, aos 62 anos com pelo menos 15 anos de contribuição. Pela regra de pontos, somando idade e tempo de contribuição — em 2026, são necessários 93 pontos, com no mínimo 30 anos de contribuição, e esse número sobe um ponto a cada ano. Pela idade mínima progressiva, que em 2026 exige 59 anos e meio de idade somados a 30 anos de contribuição, com a idade subindo seis meses por ano até chegar aos 62. E ainda existem as regras de pedágio, para quem já estava perto de se aposentar quando a Reforma entrou em vigor.
Repare no padrão: em quase todas as regras de transição, a exigência aumenta ano após ano. Quem entende isso cedo consegue escolher a melhor rota. Quem descobre em cima da hora, muitas vezes, só descobre que perdeu a chance de uma opção mais vantajosa.
O detalhe que quase ninguém te conta sobre o valor
Aqui mora a parte que costuma surpreender. Conseguir se aposentar é uma coisa. O quanto você vai receber é outra bem diferente.
Na maioria das regras atuais, o cálculo parte de 60% da média de todos os seus salários de contribuição desde julho de 1994, com um acréscimo de 2% para cada ano que passa do tempo mínimo. Traduzindo: para chegar perto de 100% da sua média, uma mulher precisa de cerca de 35 anos de contribuição. Menos que isso, e o benefício sai reduzido.
Pense em uma situação real. Imagine a Camila, 39 anos, que sempre contribuiu com valores próximos ao teto. Se ela se aposentar com o tempo mínimo de contribuição, vai receber apenas uma fração do que contribuiu a vida toda — mesmo tendo pago caro ao longo dos anos. Já se ela planejar a carreira contributiva com antecedência, pode chegar à aposentadoria com o coeficiente cheio e garantir um valor muito mais próximo do teto, que em 2026 é de R$ 8.475,55.
A diferença entre esses dois cenários pode ser de milhares de reais por mês, pelo resto da vida. E a decisão que separa um do outro precisa ser tomada anos antes — não no dia do pedido.
E se eu moro fora do Brasil?
Agora chegamos a um ponto que raramente aparece nesses guias e que é decisivo para milhares de brasileiras: o que acontece com a sua aposentadoria quando você vive no exterior?
Se você mora em outro país, provavelmente está contribuindo (ou já contribuiu) para o sistema previdenciário de lá. Talvez tenha deixado de recolher para o INSS por acreditar que “não vale mais a pena” ou que “perdeu tudo o que pagou no Brasil”. Nenhuma das duas coisas costuma ser verdade — e é aqui que o planejamento faz toda a diferença.
O primeiro ponto é que o tempo que você contribuiu no Brasil não some. Ele continua registrado e pode ser aproveitado. O segundo ponto, ainda mais importante, é que o Brasil mantém acordos internacionais de previdência social com vários países. Esses acordos permitem, na prática, somar o tempo de contribuição feito no Brasil com o tempo feito no exterior para alcançar o direito a um benefício — em vez de precisar cumprir todos os requisitos separadamente em cada país. É como se as duas metades da sua vida contributiva pudessem conversar entre si.
Isso muda completamente o jogo para quem está na faixa dos 35 aos 40 e planeja passar boa parte da carreira fora. Sem planejamento, muitas mulheres acabam com “tempo de menos” nos dois lados: nem completam o mínimo no Brasil, nem no país onde vivem. Com planejamento, os dois períodos se complementam.
Mas há decisões que precisam ser tomadas com cuidado, e cedo. Vale a pena manter as contribuições ao INSS mesmo vivendo fora? Em qual categoria de segurada? Existe acordo previdenciário entre o Brasil e o país onde você mora, e o que exatamente ele cobre? Como fica a questão tributária quando o benefício de um país é pago a uma residente em outro? Cada resposta depende do seu caso concreto — do país, do seu histórico de contribuições e dos seus planos de futuro. Não existe fórmula única, e é exatamente por isso que orientação especializada é tão importante nessa situação.
Planejar não é só sobre o INSS
Há ainda um ângulo que vale a reflexão. O mercado de trabalho não é gentil com mulheres na maturidade — dados mostram que, mesmo com a retomada das contratações de profissionais mais velhos nos últimos anos, elas ainda enfrentam mais dificuldade de recolocação depois dos 50. Muitas acabam empreendendo, abrindo um MEI ou uma pequena empresa, justamente para manter a renda.
Por isso, planejamento previdenciário maduro não significa apenas “escolher a melhor regra do INSS”. Significa construir independência financeira de forma que a aposentadoria pública seja uma parte do seu sustento, e não a única. Significa não ser surpreendida. E para a brasileira no exterior, significa olhar para os dois sistemas ao mesmo tempo, entendendo como cada real e cada euro (ou dólar, ou franco) contribuído hoje se transforma em segurança amanhã.
O melhor momento é agora
A grande vantagem de fazer esse diagnóstico entre os 35 e os 40 anos é que você ainda tem margem para ajustar quase tudo: o tipo de contribuição, o valor recolhido, a regra que vai buscar, a estratégia entre Brasil e exterior. Cada ano que passa sem esse olhar é um ano de decisões tomadas no escuro.
Se você quer entender exatamente onde está hoje, quais caminhos existem para o seu caso e como aproveitar ao máximo o tempo que já contribuiu — dentro ou fora do Brasil — esse é o momento de conversar com quem entende de previdência internacional. Um planejamento bem feito agora pode significar anos a mais de tranquilidade e milhares a mais no seu benefício lá na frente.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do seu caso. As regras previdenciárias mudam com frequência e cada situação — especialmente a de quem vive no exterior — tem particularidades próprias. Para uma orientação personalizada, entre em contato.

